Agronegócio

Safra de gerações: família direciona produção para deixar ambiente melhor aos sucessores

Autor: Por Eliane Silva — Santo Antônio do Amparo (MG) Publicado em: Fonte: Globo Rural
Safra de gerações: família direciona produção para deixar ambiente melhor aos sucessores
Foto: Rogerio Albuquerque

Desde 1993, quando herdaram a Fazenda Pinhal, no município mineiro de Santo Antônio do Amparo, João Newton Reis Teixeira e Maria Cristina Gabarra Tavares Teixeira assumiram o compromisso de deixar uma propriedade com solo e microclima melhores do que receberam. O filho Pedro Gabarra Tavares Reis Teixeira, que iniciou há oito anos a transição para assumir a gestão da fazenda de café da família, ampliou a proposta de sustentabilidade ambiental e também social e financeira.

Fazenda Pinhal: 2º Lugar Grandes Propriedades - Prêmio Fazenda Sustentável

Eles produzem, principalmente, grãos de café arábica especiais para exportação na Fazenda Pinhal e nas fazendas Santo Antônio e Mirante, adquiridas em 1997 e 2018, respectivamente. As lavouras ficam numa altitude de 930 metros a 1.180 metros e ocupam 500 dos 1.300 hectares somados das propriedades, na região do Campo das Vertentes, que tem IG (identificação geográfica) desde 2020.

Há 12 anos, a família planta de 30 a 50 hectares de café por ano, somando áreas novas e renovação, com poda de 30%das árvores, estratégia que mantém a safra estável, sem o sobe e desce da bienalidade da cultura. O projeto de expansão prevê chegar a 750 hectares de café nos próximos anos.O restante dos 1.300 hectares fica para preservação.

Plano é ampliar cafezais para até 750 hectares nos próximos anos

Rogério Albuquerque

Nos últimos anos, 70% da produção anual, de cerca de 18.000 toneladas, foi vendida para mais de dez países, com destaque para a Inglaterra. Neste ano, a empresa exportadorada família, a Coffee Senses, deve enviar para o exterior 95% da produção. O aumento se deve à abertura de novo mercado na Alemanha para os cafés baixos (pontuação inferior a 80 pontos).

Crescemos 200% a partir de 2025 com abertura de novos mercados na Europa e Ásia. Neste ano, ainda falta colher 8% do café, mas devemos fechar com um faturamento de R$ 20 milhões a R$ 25 milhões
, declara Pedro, de 45 anos, da sexta geração de café da família.

Formado em administração de empresas, ele conta que pretendia ter um negócio próprio longe da fazenda, mas, depois que o pai lhe deu uma máquina de torra, passou a vender o produto em supermercados e foi "seduzido" pelo café. Atualmente, cuida da gestão e exportação. O pai fica com as compras, oficinas e manutenção, e a irmã, Mariana, com a área ambiental e social.

O sucesso das exportações e também a dificuldade de contratação de mão de obra, maior desafio do negócio além das recentes mudanças climáticas, segundo Pedro, levaram a família a desistir da produção de café com marca própria. Atualmente, a torrefadora da fazenda só produz marcas private label para quatro clientes.

Pedro, Mariana, Maria Cristina e João Newton trabalham juntos nas fazendas

Rogerio Albuquerque

Certificada há 25 anos pela Rainforest Alliance, a Pinhal tem painéis solares que garantem toda a energia necessária com sobras. Um dos projetos ambientais da fazenda é o Asas (Áreas de Soltura de Animais Silvestres), do Instituto Estadual de Florestas (IEF), que reabilita e solta aves na natureza. Em sete anos, a iniciativa já resgatou 1.086 pássaros.

Em 2025, Pedro firmou parceria com uma escola da cidade para um programa socioambiental com os alunos do 1º ao 5º ano. As crianças visitam a fazenda duas vezes por ano, têm aulas de sustentabilidade e participam de atividades de um dia de campo.

Implantamos o projeto Raízes do Futuro, com o objetivo de incentivar as crianças a valorizar o trabalho dos pais e mostrar quanto é importante preservar a natureza
, afirma o produtor. Ele ainda revela que a Pinhal recebe plantio constante de árvores nativas e tem mais de 50 nascentes preservadas.

As lavouras são cultivadas em altitudes entre 930 e 1.180 metros

Rogério Albuquerque

Trabalham nas fazendas da família 55 funcionários fixos, que recebem cursos de capacitação. A colheita é praticamente 100% mecânica, com exceção dos cafés de micro e nanolotes e das duas primeiras safras dos novos cafezais.

A rotatividade é pequena, temos funcionários bem antigos, mas, infelizmente, há uma grande dificuldade de contratação quando eles se aposentam. Mesmo com tecnologia e atrativos, os filhos não querem trabalhar no meio rural
, constata Pedro.

Globo Rural

Além de novos plantios, a família mantém investimentos fixos anuais para renovação da frota de tratores, colhedoras e aquisição de novas tecnologias. Neste ano, os Teixeira compraram um drone com capacidade de 100litros para pulverização e adubação, visando reduzir o consumo de diesel e a compactação do solo. O equipamento será operado por funcionários que já estão fazendo curso de pilotagem.

A Fazenda Pinhal recebeu áreas de agricultura regenerativa. Começou em 2024, com 4 hectares, aumentou para 12, no ano passado, e deve chegar a 50 hectares, em 2026.

Fazenda Pinhal - Santo Antônio do Amparo (MG)

Atualmente, são usados nas lavouras 80% de defensivos químicos e 20% de biológicos. Pedro conta que já usou mais biológicos e também investiu na produção 100% orgânica em alguns talhões por cinco anos, mas recuou por falta de mão de obra, já que o cultivo orgânico demanda mais pessoas.

Serviu como aprendizado. Vamos fazer plantio orgânico novamente no próximo ano, embora o preço desse café não seja atrativo na exportação, devido à concorrência do café orgânico do Peru, que é muito barato.

Instalar um sistema de irrigação dos cafezais ainda não está nos planos. O produtor diz que já tem as outorgas e licenças, mas, por enquanto, prefere investir na "irrigação branca", com aplicação de mais gesso, para levar as raízes a buscar água no solo. Ele também usa outras tecnologias, como cultivares mais resistentes para aumento da produtividade.