Agronegócio

Seca na Amazônia afeta o volume de cargas de grãos escoadas pelos portos do Arco Norte

Autor: Por Nayara Figueiredo e Clarice Couto Publicado em: Fonte: Globo Rural
Seca na Amazônia afeta o volume de cargas de grãos escoadas pelos portos do Arco Norte
Foto: Fernando Martinho

A seca e as altas temperaturas em decorrência do El Niño já alteram o transporte de commodities agrícolas por hidrovias que levam aos portos do Arco Norte. Os níveis dos rios Madeira e Tapajós diminuíram, e, por consequência, o volume de cargas escoadas também. Além disso, a menor demanda por caminhões que carregam os grãos até as hidrovias da região pressionou o valor dos fretes rodoviários.

Caracterizado pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico, o El Niño já marcou a região amazônica na última vez em que esteve ativo, com uma seca severa entre 2023 e 2024.

Este ano está melhor que 2023, muito melhor que 2024, mas pior que 2025
, resume Edeon Vaz, diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável de Hidrovias e Corredores de Exportação (Adecon).

Segundo ele, desta vez, o escoamento pelo Rio Madeira chegou a ocorrer com 70% da capacidade de cargas em meados de outubro, depois voltou aos 100%. O Tapajós foi o mais prejudicado.

Agora parou de cair o nível do rio, mas está trabalhando com 60% da carga
, diz.

A Caramuru Alimentos, tradicional produtora de farelo de soja e outros derivados do grão, teve de adaptar sua operação de escoamento de proteína de soja concentrada em virtude do menor nível dos rios no Norte. A companhia exporta o produto a partir de um terminal em Itaituba (PA), de onde saem barcaças que seguem pelo Rio Tapajós e posteriormente pelo Rio Amazonas até o porto de Santana (AP). De lá, seguem até a cidade de Brake, na Alemanha.

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Segundo o CEO da Caramuru, Marcus Thieme, foi necessário reduzir o volume transportado em cada barcaça, devido ao menor calado dos rios, e usar um número maior de barcaças para garantir as entregas no prazo.

Não paramos de operar por conta do calado. Os volumes contratados estão sendo entregues com comboios maiores e cargas menores nas barcaças
, diz Thieme ao Valor. O executivo afirma que as chuvas na região neste momento contribuem para manter o calado em níveis estáveis.

A conjuntura também alterou os preços dos fretes rodoviários para a região, que caíram em meio à demanda menor. No trecho entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), que dá acesso ao porto de Itaituba (PA), o frete para grãos ficou em R$ 255,87 por tonelada em outubro.

Em setembro, era de R$ 260,16 e no pico de escoamento da safra de grãos pelo Norte, em junho, chegou a R$ 307,63 por tonelada, conforme dados do Sistema de Informações de Fretes (Sifreca) do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-log).

Esse movimento aconteceu por conta da redução do volume de exportação no corredor, dado o período de entressafra, e também ao El Niño, que vem impactando o calado do Rio Tapajós e fazendo com a navegação de barcaças aconteça com volumes reduzidos
, afirma o pesquisador do Esalq-log Fernando Bastiani.

Ele observa que, em outubro de 2025, o frete estava mais baixo entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), em R$ 237,51 por tonelada, mas o comparativo anual tem fundamentos diferentes.

Este ano está um pouco maior devido à pressão de custo, principalmente do diesel, que está mais caro em relação ao ano passado
.

El Niño e escoamento

Na avaliação do analista da Argus, João Petrini, o mês de "novembro vai ser um ponto chave" para mensurar os efeitos do El Niño para o escoamento de cargas pelo Arco Norte.

Em seu último boletim, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estimou haver 83% de chances de o El Niño exceder, entre outubro e dezembro, a intensidade de todos eventos anteriores desde o início da série histórica, em 1950.

O Arco Norte se consolidou como uma das principais rotas de embarque de grãos no país. De janeiro a setembro de 2026, foram escoadas 10,06 milhões de toneladas de milho pelo canal, ou 51,22% do total exportado pelo Brasil, segundo dados do governo federal. No caso da soja, os embarques alcançaram cerca de 38,7 milhões de toneladas, ou 38,66% do total.

Procurada, a Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport) não retornou aos questionamentos sobre as condições de navegabilidade na bacia amazônica. Em 2025, a movimentação de cargas pelos portos do Arco Norte alcançou 163,3 milhões de toneladas. (Colaborou Cleyton Vilarino, de São Paulo)