Agronegócio

Tomar leite direto da vaca faz mal? Entenda

Autor: Por Mariana Letizio — São Paulo Publicado em: Fonte: Globo Rural
Tomar leite direto da vaca faz mal? Entenda
Foto: Philippe Lima/Divulgação

Muito provavelmente, você já viu algum personagem de filme, série ou desenho tomando leite direto da vaca. Ou talvez já tenha recebido um copo de leite recém-ordenhado durante uma visita ao campo.

Apesar de fazer parte do imaginário rural e despertar memórias afetivas, o hábito de beber leite direto da vaca não é recomendado por especialistas. O produto pode conter bactérias, vírus e outros microrganismos capazes de provocar doenças graves em seres humanos. Entre elas estão as zoonoses, doenças em que os principais reservatórios na natureza são os animais e que podem chegar às pessoas por diferentes vias, inclusive pelo consumo de leite cru.

Segundo o professor Márcio Roberto Silva, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, 13 zoonoses provocam um impacto expressivo na saúde mundial. Juntas, elas causam cerca de 2,4 bilhões de casos e 2,2 milhões de mortes por ano.

Leia mais:

Quais são os tipos de ordenha? Entenda e veja qual sistema utilizar

Conheça dez práticas para garantir a higiene na ordenha

O segredo da ordenha robotizada está no caminho das vacas

Algumas dessas doenças podem ser transmitidas pelo leite, incluindo as gastrointestinais. Entre os agentes que provocam essas infecções estão Salmonella e Campylobacter jejuni, explica o pesquisador. A tuberculose bovina também representa um risco.

Durante seu doutorado, Silva identificou casos de tuberculose de origem bovina entre pacientes atendidos pelo serviço de saúde de Juiz de Fora (MG). Segundo ele, a falta de monitoramento de alguns patógenos dificulta a identificação dessas infecções no país.

E o consumo de leite cru pode facilitar a transmissão.

Se a vaca estiver infectada, a pessoa poderá contrair a doença ao beber o leite recém-ordenhado, inclusive diretamente da teta do animal. No caso da tuberculose bovina, o agente também pode causar mastite na vaca e chegar ao consumidor pelo leite
.

A contaminação também pode ocorrer durante a ordenha.

Fezes de animais infectados podem cair no balde ou em outros recipientes usados para coletar e manipular o leite. Se o consumidor beber o produto sem tratamento térmico adequado, poderá ingerir os microrganismos presentes nele
, explica

Lacunas na pesquisa

Para Silva, o Brasil precisa ampliar a vigilância de doenças transmitidas dos animais para os seres humanos. Ele cita a tuberculose zoonótica como exemplo de enfermidade que ainda carece de investigação sistemática no país.

Estou tentando sensibilizar o Ministério da Saúde para que seja implantada uma vigilância da tuberculose zoonótica. O estudo do meu doutorado ficou isolado, sem continuidade
, afirma.

O pesquisador conta que mantém diálogo com o Ministério e busca estimular novas pesquisas sobre o tema. Recentemente, uma estudante do Nordeste o procurou após conhecer uma patente da Embrapa para diagnosticar tuberculose em seres humanos.

Interessada em investigar casos de origem bovina, ela recebeu a orientação de buscar profissionais da saúde para desenvolver estudos em parceria com a Embrapa e especialistas das áreas veterinária e agropecuária.

A iniciativa segue o conceito de Saúde Única, que integra a saúde humana, animal e ambiental. Silva participa de discussões sobre o tema com o Ministério da Saúde e defende que a investigação da tuberculose zoonótica entre as pessoas se torne uma prioridade.

O exemplo dos Estados Unidos

A ampliação da vigilância também permitiria identificar grupos mais expostos ao risco, como produtores rurais, famílias que vivem no campo e pessoas que consomem leite cru, queijos feitos com leite não pasteurizado ou outros derivados sem tratamento térmico.

Silva cita estudos realizados na fronteira entre os e o México. Segundo ele, quase metade dos casos de tuberculose em crianças naquela região estava relacionada ao Mycobacterium bovis, bactéria que provoca tuberculose bovina e também pode infectar seres humanos.

Leia mais:

Vacas tomam até seis banhos por dia na maior fazenda de leite do Brasil; entenda

Ordenha robótica e alta eficiência são destaques da Agroleite em Castro (PR)

Robô ordenha 65 vacas e libera produtor para a gestão

Antes da adoção da pasteurização, na década de 1910, a tuberculose bovina respondia por 25% dos casos de tuberculose humana nos Estados Unidos, segundo o pesquisador. Com a implantação da tecnologia, que combina tempo e temperatura para reduzir drasticamente a quantidade de microrganismos perigosos, a proporção caiu para 0,1%.

De acordo com Silva, a taxa voltou a subir na fronteira entre os dois países. Ele afirma que os norte-americanos atribuem parte desse aumento ao consumo de leite cru e derivados não pasteurizados comprados no México, inclusive por pessoas que viajam entre os dois países.

Brucelose também preocupa

O risco do consumo de leite cru depende, entre outros fatores, do controle das doenças nos rebanhos. Regiões que ainda enfrentam dificuldades para controlar a tuberculose bovina podem apresentar maior risco de transmissão, explica Silva. A brucelose também preocupa.

A doença pode causar mastite nas vacas e atingir seres humanos que consomem leite de animais infectados
. Segundo o pesquisador, várias regiões brasileiras ainda não alcançaram um nível satisfatório de controle da brucelose bovina.

Silva relata que existem registros de casos da doença em mulheres que apresentam problemas reprodutivos. Para o pesquisador, esses relatos reforçam a necessidade de preparar os serviços de saúde para investigar e diagnosticar doenças que ainda recebem pouca atenção no Brasil, além da importância da pasteurização no consumo.