Agronegócio

Um ano após sua criação, MBRF acelera as sinergias e a expansão internacional

Autor: Por Clarice Couto — São Paulo Publicado em: Fonte: Globo Rural
Um ano após sua criação, MBRF acelera as sinergias e a expansão internacional
Foto: Gabriel Reis/Valor

Há cerca de um ano, duas das maiores companhias de alimentos do Brasil, BRF e Marfrig, concluíam a fusão que criou a gigante MBRF, na época com receita próxima de R$ 152 bilhões. Nos 12 meses seguintes, o comércio global de carnes sofreu alguns solavancos: a China impôs uma cota para a carne bovina ao Brasil 35% menor do que o país exportava, os Estados Unidos seguiram impondo e retirando tarifas sobre o produto e um conflito com forte impacto comercial atingiu o Oriente Médio.

Apesar disso, a MBRF deve alcançar R$ 1 bilhão em sinergias, previsto até então para 2028, antes do prazo, e expande suas operações na China e no Oriente Médio.

Só no primeiro semestre, a empresa contabilizou R$ 285 milhões em sinergias decorrentes da fusão, de R$ 608 milhões previstos para 2026. Dado o ritmo acelerado dos trabalhos, a expectativa é superar o total inicialmente previsto, disse ao Valor o diretor presidente da companhia, Miguel Gularte.

Estamos adiantados e [o valor de R$ 1 bilhão] deve ser superado, inclusive. Nos três anos e pouco anteriores à fusão, as duas empresas já tinham trabalhado conjuntamente em vários aspectos, o que fez com que o nosso planejamento pós-fusão tivesse um ramp up [aceleração] muito mais ágil do que num ambiente normal de fusão
, afirmou Gularte, em referência ao fato de a Marfrig já controlar a BRF antes da fusão.

No segundo trimestre deste ano, a MBRF finalizou a unificação das suas equipes de vendas de Marfrig e BRF no mercado brasileiro, disse o vice-presidente de Finanças, Relações com Investidores, Gestão e Tecnologia, José Ignácio Scoseria Rey. O movimento é considerado estratégico, ao viabilizar a oferta de produtos Marfrig a clientes da BRF e vice-versa.

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Um exemplo é o Estado de São Paulo, onde a BRF sempre teve presença forte em produtos de frango e suíno e agora busca expandir também em bovinos. No exterior, a Marfrig também tinha uma rede comercial estabelecida na Europa e nos Estados Unidos, focada em carne bovina. Apesar de as exportações brasileiras de frango à União Europeia estarem suspensas por causa de controles sobre antimicrobianos no Brasil, o setor considera a retomada dos negócios neste ano. Para os EUA, a MBRF começou a exportar carne suína no ano passado, segundo Gularte.

O grande potencial é conseguir chegar, com carne bovina, aos 432 mil clientes [354 mil no Brasil] da BRF, ter uma cobertura muito maior que a que tínhamos com a força de vendas da carne bovina
, afirmou Scoseria.

No Oriente Médio, onde a companhia começou a atuar na década de 1970, ainda como Sadia (uma das marcas da BRF), os reveses da guerra foram sentidos, mas não alteraram planos. Se a insegurança em rotas logísticas tradicionais e a alta do petróleo obrigaram a MBRF a buscar vias alternativas mais caras, o acordo de fornecimento com o fundo saudita Salic contribuiu para as vendas e resultados. Ter estoques na região, também.

Gularte lembrou que a partir de 2024, com casos de Doença de Newcastle e gripe aviária no Brasil afetando exportações, a empresa decidiu manter estoques nos destinos, o que garantiu o suprimento neste ano. Além disso, desde o fim de 2024 a MBRF vinha observando aumento do consumo e dos preços de carnes na região. A perspectiva é de que até 2027 mais 23 milhões de pessoas se somem à população do Oriente Médio, acrescentou.

Fomos testados nas nossas escolhas. Houve redução do turismo, [cujo consumo] foi substituído pelo consumo local e pelo espaço deixado por empresas que decidiram não estar presentes na região
, afirmou o executivo.

A guerra não mudou o cronograma da planejada abertura de capital da Sadia Halal, criada pela MBRF com a HPDC, subsidiária do fundo soberano saudita PIF, em outubro de 2025. A companhia selecionou bancos que atuarão na operação e tem conversado com o órgão regulador saudita sobre temas técnicos. O plano é fazer o IPO em meados de 2027. Com as ações da Sadia Halal listadas na bolsa de Riad, a expectativa é elevar a base de investidores. Hoje, a empresa é avaliada em 6 vezes seu valor da empresa sobre o lucro (EV/Ebitda), mas poderia se aproximar de 10 e 11 vezes, segundo Scoseria.

Neste ano, a MBRF está acrescentando na região capacidade produtiva de cerca de 55 mil toneladas -- 15 mil em Kezad, nos Emirados Árabes, e 40 mil toneladas na nova fábrica de Jeddah, na Arábia Saudita.

Na China, a empresa se posiciona para acompanhar os planos do país de reduzir sua dependência externa de alimentos. A fábrica da província de Henan, comprada no fim de 2024, está com 80% da capacidade utilizada e deve chegar a 100% ainda neste ano, disse Gularte. A planta deve ser ampliada gradualmente.

Dentro de casa, a MBRF busca reduzir sua dívida, de R$ 45 bilhões ao fim do segundo trimestre deste ano. De acordo com Scoseria, a companhia deu início a conversas com investidores para uma potencial emissão internacional de títulos visando captação de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão. Com o recurso, pretende recomprar títulos com vencimento em 2029, como anunciou ontem sobre papéis emitidos pela subsidiária NBM US Holdings, bem como o pagamento dívidas de curto prazo.