Agronegócio

Um rio para o futuro: casal usa a conservação ambiental como parte da produção e do ecoturismo

Autor: Por Cleyton Vilarino — Jardim (MS) Publicado em: Fonte: Globo Rural
Um rio para o futuro: casal usa a conservação ambiental como parte da produção e do ecoturismo
Foto: Thiago de Jesus

Na primeira vez em que a fazenda recebeu um grupo de turistas, em 1995, as coisas não saíram exatamente como o planejado. Era um feriado de Corpus Christi, fazia frio em Jardim, em Mato Grosso do Sul, e uma garoa fina dificultava a contemplação do rio de águas cristalinas que margeia a propriedade. Mesmo assim, ao final do passeio, o pecuarista Eduardo Folley Coelho ouviu de um dos visitantes algo que mudaria completamente a sua visão sobre a fazenda que recebeu do pai há mais de quatro décadas.

Fazenda Cabeceira do Prata: Campeã do Fazenda Sustentável - Médias Propriedades

Ele agradeceu pelo passeio e disse: 'Vocês não precisavam dividir esse local com outras pessoas, vocês poderiam manter isso só para a família de vocês'. Foi uma frase importante que a pessoa falou. Naquele momento deu para sentir o tesouro que tínhamos em mãos e quão especial é esse local
, recorda.

A decisão de abrir a fazenda para visitação não foi fácil. Foi ali, ainda na sua adolescência, que Eduardo conheceu sua companheira de vida, com quem é casado até hoje, a pianista Simone Spengler Coelho.

Esse lugar sempre foi muito precioso para nós. Tínhamos muito receio de abrir para visitação turística
, revela Simone. Ela ainda lembra dos tempos em que, junto com amigos, o casal visitava a margem do Rio da Prata para acampar, pescar e admirar o local.

Desde aquela época, já nos preocupávamos em não deixar resíduos no lugar. Nós éramos escoteiros e bandeirantes e tínhamos todo um cuidado ambiental, coletando lixo do rio e levando para a cidade
, recorda. Naquela época, era comum encontrar latas de bebidas deixadas por outros visitantes - um mal que os dois decidiram abolir depois que se tornaram proprietários da fazenda, em 1979.

Quem chega atualmente ao Recanto Ecológico Rio da Prata logo nota a ausência de bebidas servidas em latas ou garrafas plásticas. A prioridade são produtos com embalagens retornáveis, reduzindo drasticamente a geração de resíduos, ainda que sejam recicláveis. No lugar de canudos, o visitante é apresentado a uma inovação. O caule da folha de mamão, previamente tratado, faz a vez do instrumento símbolo da poluição de rios e mares mundo afora.

Com isso, nós conseguimos a certificação de lixo zero, com mais de 90% da nossa geração de lixo recebendo a destinação correta. Apenas 3% vão para o sanitário. O restante fazemos ou compostagem, ou reutilização, ou reciclagem
, afirma o gerente de turismo da fazenda, Teodison Gonçalves.

Parte da horta cultivada com manejo orgânico é mantida pelo casal em sistema agroflorestal

Thiago de Jesus

No pasto, onde criam gado de leite e corte com foco em seleção e melhoramento genético, as lonas usadas para conservação da silagem e os sacos do sal mineral oferecido aos animais também recebem a destinação correta e são enviados de volta ao fabricante num frete de retorno. Até o papel higiênico é compostado, tornando-se adubo orgânico aplicado nos pomares da propriedade. "Desde sempre, nunca enterramos lixo nenhum na fazenda", garante Eduardo Coelho.

A preocupação ambiental também inclui a alimentação. Frutas, verduras e legumes são produzidos na própria fazenda em uma horta de manejo orgânico mantida em sistema agroflorestal. A adubação é feita com a compostagem das sobras da cozinha e também com TMT, um substrato biológico produzido a partir de solo florestal. A calda é aplicada também no pasto, mas o plano é fazer um diagnóstico microbiológico do solo para realizar um manejo preciso.

São 400 hectares de área preservada na propriedade, incluindo uma reserva particular de patrimônio natural.

Thiago de Jesus

Essa horta, desse tamanho, é a realização de um sonho. Desde o início queríamos servir comida saudável
, afirma Simone. Parte da produção é doada ao hospital local, um compromisso assumido durante a pandemia e mantido até hoje. São cerca de quatro doações mensais oriundas de 4.000 metros quadrados de horta e cerca de 2 hectares de sistemas agroflorestais distribuídos pela propriedade. Na pecuária, a produção de leite também gera excedente doado à Associação Pestalozzi, que atende pessoas com deficiência intelectual ou neuromotora.

Outra iniciativa do casal é a participação em um projeto de educação em parceria com a prefeitura e escolas locais. Por meio da ação, são promovidas visitas pedagógicas que aproximam os alunos das atividades agropecuárias e ambientais.

Para mim, é mais importante buscar a sustentabilidade, do que o máximo ganho financeiro. A gente tem que ganhar dinheiro, mas não é o dinheiro pelo dinheiro
, reforça Eduardo. Foi com essa mentalidade que ele iniciou o viveiro de mudas nativas na propriedade. Com quase 100 espécies diferentes multiplicadas, ele confessa que a produção de mudas demorou a ganhar tração e a gerar retorno.
Isso não dá dinheiro, só dá trabalho, e muito trabalho. Mas acertamos a sustentabilidade da região para ter um rio de água limpa
, destaca.

Além de serem usadas na propriedade, as mudas são distribuídas para outras fazendas para utilização em projetos de reflorestamento mantidos por institutos e ONGs locais. Somente para outubro, está previsto o envio de 400 mudas para recuperação da nascente do Rio Miranda, na foz do Rio da Prata.

Isso nos deixa muito felizes e também contribui com o negócio de carbono
, diz Eduardo. Além da certificação de lixo zero, a Cabeceira do Prata também tem certificação de carbono neutro, sequestrando mais do que emite.

Globo Rural

Os efeitos são visíveis. Desde 1979, a área de mata nativa da propriedade cresceu, incluindo a criação de uma reserva particular de patrimônio natural (RPPN) e a recuperação de uma nascente. Ao todo, são quase 400 hectares de área preservada de um total de 1.547 hectares. Em uma iniciativa que inclui parceria com o centro de reabilitação animal do município, o casal mantém, junto à floresta, ninhos artificiais para contribuir com a procriação de aves, principalmente araras.

O resultado de tantas ações conservacionistas pode ser conferido nas águas do Rio da Prata, hoje mais cristalinas e repletas de peixes nativos, como piraputanga, tambaqui e corimba.

A turbidez é importante demais, porque o turista não vê o peixe. E se você controla a turbidez, você controla o sedimento também. O sedimento é muito danoso para o rio, porque ele vai cobrindo a comida do peixe
, explica o fazendeiro, sem esconder a satisfação com o resultado alcançado.
Hoje o Rio da Prata está voltando a ser o rio que era há 40 anos, cada vez com água mais cristalina
, celebra.

Apesar da evidente melhora, Eduardo não se considera satisfeito. Seu mais novo projeto prevê a implantação de seis a oito tanques de criação de peixes nativos da região, visando reduzir a pressão da pesca no Rio da Prata - proibida por uma lei redigida por ele próprio.

Tem um processo de pesca predatória violenta acontecendo ainda. Os órgãos de governo não dão conta de fiscalizar e de conscientizar a população
, lamenta.

Fazenda Cabeceira do Prata - Jardim (MS)

A expectativa, afirma, é que a criação permita doar alevinos para pequenos produtores da região, fomentando um mercado de peixes de criação na cidade de Jardim em parceria com a prefeitura local.

Vamos tentar que a prefeitura faça um dos tanques para os produtores, principalmente em áreas de assentamento, para gerar uma alternativa de renda que os desestimule a pegar o peixe no rio
, revela Eduardo.

Outro projeto é a produção de queijo a partir do leite produzido na propriedade. Hoje destinado à fabricação de doce, servido aos visitantes no tacho e vendido com o Selo Arte do Ministério da Agricultura, o leite da Cabeceira do Prata é do tipo A2A2, de melhor digestibilidade, produzido por vacas criadas a pasto.

Os bezerros são mantidos com as mães até os sete meses, uma medida de bem-estar que também reduz os ganhos financeiros da operação, mas da qual Simone e Eduardo não abrem mão.

Quando eu ando aqui na fazenda, vem um senso de realização muito grande do que conseguimos fazer. É um processo de muitos anos, mas, desde o início, trabalhamos com respeito, sabendo que não temos o direito de danificar um lugar como esse
, completa Eduardo.