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A recente decisão contrária da Suprema Corte dos Estados Unidos poderia ter representado uma desaceleração na estratégia tarifária adotada pelo governo Trump. Mas não foi o que aconteceu. O comunicado do USTR deixa claro que, embora a ferramenta da IEEPA tenha sido afastada, a política de tarifas continua firme. Para o Brasil, o alívio é parcial e provavelmente temporário.
Para o setor agropecuário brasileiro, essa situação é ainda mais delicada. Entre todos os segmentos, o agro junta maior exposição ao mercado externo, margens de lucro apertadas e uma forte necessidade de previsibilidade regulatória. Quando Washington muda as regras, o campo é quem sente primeiro e mais intensamente.
A primeira medida diz respeito à Seção 122 do Trade Act de 1974, que impõe uma sobretaxa imediata de 15%. Esse instrumento foi criado para lidar com desequilíbrios no balanço de pagamentos, válido por até 150 dias e renovável com aprovação do Congresso.

Na prática, trata-se de uma tarifa ampla — e isso faz toda a diferença. Diferentemente de medidas pontuais, a Seção 122 atinge praticamente todos os exportadores. Para o Brasil, isso inclui proteína animal, suco de laranja, café, açúcar, celulose e madeira. São produtos com contratos de médio prazo, preços formados em bolsas internacionais e margens já bastante enxutas.
Uma sobretaxa de 15% não é um detalhe pequeno. Muitas vezes, pode significar a perda de competitividade diante de fornecedores alternativos. O setor agropecuário trabalha com grandes volumes e ganhos por centavo. Além disso, há o fator logístico: cargas já embarcadas podem ser taxadas com a nova tarifa, e o exportador não consegue simplesmente “segurar” a produção no armazém, como pode fazer um setor industrial com estoques mais flexíveis.
O segundo ponto é mais estrutural: a expansão da Seção 301. O comunicado aponta para uma aceleração nas investigações contra grandes parceiros comerciais, ampliando o conceito de “práticas desleais” para incluir temas ambientais, digitais e regulatórios. No caso do Brasil, há investigações em andamento sobre desmatamento, propriedade intelectual, ambiente digital e até o Pix.
Para o agro, esse é o ponto mais delicado. Ao incluir desmatamento e outras questões ambientais como base para a aplicação de tarifas, a política comercial passa a impactar diretamente a produção rural. Não estamos falando só de preço ou volume, mas também de governança ambiental, rastreabilidade, crédito rural e uso da terra.

A Seção 301 permite tarifas altas e seletivas, como já aconteceu com a China. Ou seja, não é uma sobretaxa geral, mas medidas direcionadas a cadeias específicas. Carnes, soja, madeira e seus derivados podem virar alvos se forem associados, mesmo que indiretamente, a narrativas ambientais. O agro brasileiro tem avançado em rastreabilidade e compliance, mas, em uma investigação 301, o critério final é político. Isso aumenta o grau de incerteza.
As tarifas da Seção 232, baseadas em segurança nacional, permanecem inalteradas e já afetam aço, alumínio, cobre, madeira e móveis. Pode parecer que isso impacta mais a indústria do que o campo, mas a realidade é mais complexa. A cadeia do agro é integrada: máquinas agrícolas, implementos, silos, estruturas metálicas e embalagens dependem desses insumos. Quando tarifas tornam esses produtos mais caros ou restringem suas exportações, o efeito se espalha.
O comunicado também reforça uma narrativa estratégica: reduzir o déficit comercial, exigir reciprocidade e fomentar o reshoring produtivo — ou seja, o uso das tarifas como instrumento de política industrial. A negociação deixa de ser apenas comercial para se tornar estratégica, incluindo temas como terras raras, comércio digital, padrões regulatórios e compromissos ambientais. Na prática, isso pode significar pressões para abertura regulatória ou alinhamento tecnológico como condição para reduzir tarifas. O setor rural, que já enfrenta exigências sanitárias e ambientais complexas, poderá ver esse cenário ficar ainda mais político.
O tom do comunicado também sugere um uso político doméstico. A insistência em destacar a redução do déficit e a validade dos acordos reforça a intenção da Casa Branca em manter pressão sobre parceiros comerciais. Para o Brasil, isso significa que nenhum acordo deve ser encarado como definitivo. O risco de renegociação diante de novas ameaças tarifárias passa a ser constante. E o agro, por ser a principal fonte de superávit na balança comercial brasileira, tende a ficar sempre no centro dessas negociações.
Assim, para o agro brasileiro, a palavra-chave é previsibilidade — algo que ainda é escasso.
A Seção 122 é temporária e juridicamente contestável, e importadores americanos podem questioná-la. Já a Seção 301 exige investigação formal e bases técnicas, o que abre espaço para defesas jurídicas e diplomáticas. Mas o ponto central desse complexo cenário entre Brasil e Estados Unidos é que a decisão da Suprema Corte não encerra o ciclo tarifário, apenas o transforma.
Num mundo em que as tarifas viram ferramentas de política industrial e ambiental, o produtor rural passa a disputar não só mercado, mas também a narrativa. E a resposta precisa ir além do reativo: exige coordenação entre governo e setor privado, diplomacia ativa e uma estratégia clara para o posicionamento internacional.

O campo brasileiro já mostrou que sabe competir. Agora, precisa garantir que continuará tendo essa oportunidade.

Ana Paula Abritta, colubista da BMJ

Ana Paula Abritta é diretora de Estratégia e Inovação da BMJ Consultores Associados, onde atua desde 2016 liderando equipes de Relações Governamentais, Inovação e Comércio Internacional. É mestra em Poder Legislativo (Câmara dos Deputados), com MBA em Comércio Internacional (FGV) e graduação em Relações Internacionais (UCB). É cofundadora da rede Women Inside Trade (WIT).


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